Os Quesitos Periciais são as perguntas técnicas formuladas pelas partes e submetidas ao Perito Oficial para delimitar o objeto da perícia. Quando elaborados estrategicamente por um Assistente Técnico (Psiquiatra), eles deixam de ser meras formalidades e tornam-se ferramentas de “cerco lógico”, obrigando o perito a enfrentar provas documentais e sintomas específicos, impedindo respostas evasivas ou laudos genéricos.
Existe uma máxima na perícia forense: “Pergunta ruim gera resposta ruim.”
Muitos advogados, na correria dos prazos, copiam “Modelos de Quesitos” da internet. O resultado? O perito responde com um carimbo: “Vide Laudo” ou “Prejudicado”. Você perdeu a chance de conduzir a narrativa técnica do caso.
O Quesito Estratégico não é uma dúvida; é uma tese disfarçada de pergunta. Ele serve para:
- Fazer o perito ler um documento que ele ignoraria;
- Obrigar o perito a reconhecer um sintoma descrito em literatura;
- Expor contradições se a resposta for negativa.
Neste artigo, a Dra. Thaíssa Cruvinel abre a caixa de ferramentas da Assistência Técnica e ensina como transformar perguntas em provas.
Os 3 Tempos dos Quesitos (Cronologia Processual)
O Código de Processo Civil (CPC) oferece três oportunidades para você encurralar (ou ajudar) o perito. Saber usar cada uma é vital.
1. Quesitos Preliminares (O Mapa)
Apresentados antes da perícia (Art. 465 CPC).
Função: Delimitar o terreno.
Erro Comum: Perguntar o óbvio (“O autor tem doença?”).
Estratégia: Já inserir a tese de nexo. “Considerando que a Síndrome de Burnout exige a tríade de exaustão, despersonalização e baixa realização (CID-11), queira o Sr. Perito investigar se tais sintomas estão presentes no histórico laboral do autor.”
2. Quesitos Suplementares (O Ajuste de Rota)
Apresentados durante a diligência pericial (Art. 469 CPC).
Função: Quem tem Assistente Técnico na sala de perícia sai na frente aqui. Se o perito esqueceu de perguntar sobre a insônia, o assistente verbaliza o quesito na hora: “Doutor, poderia constar em quesito suplementar como é o padrão de sono do periciando?”.
3. Quesitos de Esclarecimento (O Contra-Ataque)
Apresentados depois do laudo, na impugnação (Art. 477 CPC).
Função: Expor contradições. É aqui que desmontamos laudos ruins.
“Sr. Perito, na página 3 o senhor diz que a memória está preservada, mas na página 5 diz que o autor não lembrou a data de nascimento. Poderia esclarecer a contradição técnica à luz da psicopatologia?”
A Anatomia de um “Quesito Armadilha”
O objetivo não é enganar o perito, mas impedir que ele seja simplista. Veja a diferença entre um quesito de advogado (genérico) e um quesito de médico assistente (técnico).
| Tipo de Quesito | Exemplo Ruim (Genérico) | Exemplo Estratégico (Assistente Técnico) |
|---|---|---|
| Diagnóstico | “O autor tem depressão?” | “Considerando os relatórios médicos de fls. 20-40 que descrevem tentativa de suicídio e anedonia grave, pode o Sr. Perito confirmar a persistência do quadro depressivo refratário?” (Obriga a ler as folhas citadas). |
| Capacidade | “Ele pode trabalhar?” | “As medicações em uso (Quetiapina 300mg e Clonazepam 2mg), conhecidas por causar sedação e lentificação, são compatíveis com a operação de máquinas pesadas que a função exige?” (Obriga a analisar a farmacologia). |
| Nexo Causal | “O trabalho causou a doença?” | “Se o autor estava assintomático na admissão (ASO Apto) e iniciou sintomas após a mudança de gerência (fls. 50), como o Sr. Perito exclui cientificamente a concausa (Schilling II) de agravamento?” (Obriga a justificar a exclusão). |
Quesitos por Área de Atuação
Na Esfera Trabalhista (Burnout e Assédio)
O foco é o Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP).
Exemplo: “A empresa apresentou o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) contendo os riscos psicossociais do setor? Se não, como avaliar a prevenção?”
Isso transfere a responsabilidade da prova para a empresa.
Na Esfera Criminal (Inimputabilidade)
O foco é a Cronologia do Delito.
Exemplo: “No momento exato da agressão, descrita pelas testemunhas como ‘furiosa e desconexa’, o réu apresentava sinais de ruptura com a realidade (surto psicótico) ou apenas raiva?”
Isso força a distinção entre crime passional e doença mental. Saiba mais em Pareceres Criminais.
Na Esfera Cível (Interdição)
O foco é a Vida Diária (AVD).
Exemplo: “O periciando sabe o valor do salário mínimo? Sabe conferir o troco de uma compra de supermercado? Se não, como pode gerir seu patrimônio?”
O Que NÃO Fazer (Erros Fatais)
- Perguntas de Direito: “O autor tem direito a indenização?”. Perito não é juiz. Ele responde sobre saúde, não sobre direito.
- Perguntas de “Sim ou Não” isoladas: Dê espaço para o perito dissertar, mas amarre o tema.
- Quesitos em Excesso: Mandar 100 quesitos irrita o perito. Ele vai responder de qualquer jeito. Mande 10 quesitos cirúrgicos.
A Importância da Assistência Técnica na Elaboração
O advogado sabe o que precisa provar (ex: incapacidade). O médico assistente sabe como perguntar para que a medicina confirme isso.
A elaboração dos quesitos começa com a leitura integral do processo. Identificamos os pontos fracos da documentação e usamos os quesitos para cobrir esses “buracos” antes que o perito oficial os veja.
Se o laudo já veio ruim, a estratégia muda: usamos os Quesitos de Esclarecimento para desqualificar a metodologia do perito e pedir anulação.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Posso apresentar quesitos depois do prazo de 15 dias?
O prazo do Art. 465 é considerado “impróprio” pela jurisprudência majoritária. Ou seja, se você apresentar os quesitos antes da perícia acontecer, o perito geralmente é obrigado a responder. Mas não deixe para a última hora para não irritar o juízo.
2. O perito é obrigado a responder a todos os quesitos?
Sim. O Art. 473, IV do CPC diz que o laudo deve conter a resposta conclusiva a todos os quesitos. Se ele pular algum ou responder “vide laudo” sem que a resposta esteja lá, cabe impugnação por laudo incompleto.
3. Quantos quesitos posso fazer?
A lei não limita, mas o bom senso sim. Recomendamos entre 10 a 15 quesitos preliminares focados. Quesitos suplementares devem ser pontuais (3 a 5).
4. O advogado pode fazer os quesitos sozinho?
Pode, mas corre o risco de fazer perguntas tecnicamente imprecisas (ex: confundir “inconsciente” com “inimputável”) que dão margem para o perito negar o direito do cliente.
5. Quesitos suplementares pagam honorários extras?
Depende. Se forem apenas esclarecimentos sobre o trabalho já feito, não. Se exigirem nova diligência ou forem muito extensos, o perito pode pedir complementação de honorários.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Artigos 465, 469 e 477.
- MORAES, G. Manual de Perícias Médicas Trabalhistas. São Paulo: LTr, 2021.
- CREMESP. Pareceres e Resoluções sobre Perícia Médica.
- SILVA, M. A. A Prova Pericial no Processo Civil: Estratégias e Prática. Rio de Janeiro: Forense, 2019.
Os Quesitos Periciais são as perguntas técnicas formuladas pelas partes e submetidas ao Perito Oficial para delimitar o objeto da perícia. Quando elaborados estrategicamente por um Assistente Técnico (Psiquiatra), eles deixam de ser meras formalidades e tornam-se ferramentas de “cerco lógico”, obrigando o perito a enfrentar provas documentais e sintomas específicos, impedindo respostas evasivas ou laudos genéricos.
Existe uma máxima na perícia forense: “Pergunta ruim gera resposta ruim.”
Muitos advogados, na correria dos prazos, copiam “Modelos de Quesitos” da internet. O resultado? O perito responde com um carimbo: “Vide Laudo” ou “Prejudicado”. Você perdeu a chance de conduzir a narrativa técnica do caso.
O Quesito Estratégico não é uma dúvida; é uma tese disfarçada de pergunta. Ele serve para:
- Fazer o perito ler um documento que ele ignoraria;
- Obrigar o perito a reconhecer um sintoma descrito em literatura;
- Expor contradições se a resposta for negativa.
Neste artigo, a Dra. Thaíssa Cruvinel abre a caixa de ferramentas da Assistência Técnica e ensina como transformar perguntas em provas.
Os 3 Tempos dos Quesitos (Cronologia Processual)
O Código de Processo Civil (CPC) oferece três oportunidades para você encurralar (ou ajudar) o perito. Saber usar cada uma é vital.
1. Quesitos Preliminares (O Mapa)
Apresentados antes da perícia (Art. 465 CPC).
Função: Delimitar o terreno.
Erro Comum: Perguntar o óbvio (“O autor tem doença?”).
Estratégia: Já inserir a tese de nexo. “Considerando que a Síndrome de Burnout exige a tríade de exaustão, despersonalização e baixa realização (CID-11), queira o Sr. Perito investigar se tais sintomas estão presentes no histórico laboral do autor.”
2. Quesitos Suplementares (O Ajuste de Rota)
Apresentados durante a diligência pericial (Art. 469 CPC).
Função: Quem tem Assistente Técnico na sala de perícia sai na frente aqui. Se o perito esqueceu de perguntar sobre a insônia, o assistente verbaliza o quesito na hora: “Doutor, poderia constar em quesito suplementar como é o padrão de sono do periciando?”.
3. Quesitos de Esclarecimento (O Contra-Ataque)
Apresentados depois do laudo, na impugnação (Art. 477 CPC).
Função: Expor contradições. É aqui que desmontamos laudos ruins.
“Sr. Perito, na página 3 o senhor diz que a memória está preservada, mas na página 5 diz que o autor não lembrou a data de nascimento. Poderia esclarecer a contradição técnica à luz da psicopatologia?”
A Anatomia de um “Quesito Armadilha”
O objetivo não é enganar o perito, mas impedir que ele seja simplista. Veja a diferença entre um quesito de advogado (genérico) e um quesito de médico assistente (técnico).
| Tipo de Quesito | Exemplo Ruim (Genérico) | Exemplo Estratégico (Assistente Técnico) |
|---|---|---|
| Diagnóstico | “O autor tem depressão?” | “Considerando os relatórios médicos de fls. 20-40 que descrevem tentativa de suicídio e anedonia grave, pode o Sr. Perito confirmar a persistência do quadro depressivo refratário?” (Obriga a ler as folhas citadas). |
| Capacidade | “Ele pode trabalhar?” | “As medicações em uso (Quetiapina 300mg e Clonazepam 2mg), conhecidas por causar sedação e lentificação, são compatíveis com a operação de máquinas pesadas que a função exige?” (Obriga a analisar a farmacologia). |
| Nexo Causal | “O trabalho causou a doença?” | “Se o autor estava assintomático na admissão (ASO Apto) e iniciou sintomas após a mudança de gerência (fls. 50), como o Sr. Perito exclui cientificamente a concausa (Schilling II) de agravamento?” (Obriga a justificar a exclusão). |
Quesitos por Área de Atuação
Na Esfera Trabalhista (Burnout e Assédio)
O foco é o Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP).
Exemplo: “A empresa apresentou o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO) contendo os riscos psicossociais do setor? Se não, como avaliar a prevenção?”
Isso transfere a responsabilidade da prova para a empresa.
Na Esfera Criminal (Inimputabilidade)
O foco é a Cronologia do Delito.
Exemplo: “No momento exato da agressão, descrita pelas testemunhas como ‘furiosa e desconexa’, o réu apresentava sinais de ruptura com a realidade (surto psicótico) ou apenas raiva?”
Isso força a distinção entre crime passional e doença mental. Saiba mais em Pareceres Criminais.
Na Esfera Cível (Interdição)
O foco é a Vida Diária (AVD).
Exemplo: “O periciando sabe o valor do salário mínimo? Sabe conferir o troco de uma compra de supermercado? Se não, como pode gerir seu patrimônio?”
O Que NÃO Fazer (Erros Fatais)
- Perguntas de Direito: “O autor tem direito a indenização?”. Perito não é juiz. Ele responde sobre saúde, não sobre direito.
- Perguntas de “Sim ou Não” isoladas: Dê espaço para o perito dissertar, mas amarre o tema.
- Quesitos em Excesso: Mandar 100 quesitos irrita o perito. Ele vai responder de qualquer jeito. Mande 10 quesitos cirúrgicos.
A Importância da Assistência Técnica na Elaboração
O advogado sabe o que precisa provar (ex: incapacidade). O médico assistente sabe como perguntar para que a medicina confirme isso.
A elaboração dos quesitos começa com a leitura integral do processo. Identificamos os pontos fracos da documentação e usamos os quesitos para cobrir esses “buracos” antes que o perito oficial os veja.
Se o laudo já veio ruim, a estratégia muda: usamos os Quesitos de Esclarecimento para desqualificar a metodologia do perito e pedir anulação.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Posso apresentar quesitos depois do prazo de 15 dias?
O prazo do Art. 465 é considerado “impróprio” pela jurisprudência majoritária. Ou seja, se você apresentar os quesitos antes da perícia acontecer, o perito geralmente é obrigado a responder. Mas não deixe para a última hora para não irritar o juízo.
2. O perito é obrigado a responder a todos os quesitos?
Sim. O Art. 473, IV do CPC diz que o laudo deve conter a resposta conclusiva a todos os quesitos. Se ele pular algum ou responder “vide laudo” sem que a resposta esteja lá, cabe impugnação por laudo incompleto.
3. Quantos quesitos posso fazer?
A lei não limita, mas o bom senso sim. Recomendamos entre 10 a 15 quesitos preliminares focados. Quesitos suplementares devem ser pontuais (3 a 5).
4. O advogado pode fazer os quesitos sozinho?
Pode, mas corre o risco de fazer perguntas tecnicamente imprecisas (ex: confundir “inconsciente” com “inimputável”) que dão margem para o perito negar o direito do cliente.
5. Quesitos suplementares pagam honorários extras?
Depende. Se forem apenas esclarecimentos sobre o trabalho já feito, não. Se exigirem nova diligência ou forem muito extensos, o perito pode pedir complementação de honorários.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Artigos 465, 469 e 477.
- MORAES, G. Manual de Perícias Médicas Trabalhistas. São Paulo: LTr, 2021.
- CREMESP. Pareceres e Resoluções sobre Perícia Médica.
- SILVA, M. A. A Prova Pericial no Processo Civil: Estratégias e Prática. Rio de Janeiro: Forense, 2019.


